7 de junho de 2010

Relatos dos tutores sobre problemas de comportamento dos seus cães

Resolvi postar o texto na integra no qual colaborei para a reportagem do Jornal A Gazeta de Vitória - ES, no domingo dia 6 de junho de 2010. Achei interessante pública-lo como forma de complementar a matéria, já que o espaço foi insuficiente para abordar o tema segundo minha visão profissional na integra.

A matéria consistiu no relato de leitores do jornal acompanhada de possíveis soluções abordadas por profissionais sobre problemas comportamentais de seus cães. O link para a reportagem no jornal:


A seguir o texto completo que enviei para a repórter do jornal:

Devido a dados insuficientes e o intuito de se fechar um diagnóstico comportamental, dentro de uma abordagem veterinária, de forma completa e assertiva, as análises e soluções aqui apresentadas são possibilidades baseadas no que foi descrito pelos tutores dos cães.

Relatos e análises:

Tutor 1: “...não come mais ração só quer aqueles salames de cachorros...”

Assim como nos humanos, os cães têm preferências alimentares, e quando se apresenta algo mais palatável do que a ração, de forma não restrita, há enormes possibilidades de que o cão tenha maior preferência pelo alimento mais saboroso. Outra possibilidade é o consumo calórico diário ser preenchido por outros itens alimentares, portanto na hora de comer a ração o animal está saciado. Isso é prejudicial para o animal, já que a ração de boa qualidade possui todos nutrientes essenciais para manutenção da sua saúde. Uma das soluções seria a de diminuir os petiscos de forma drástica, e introduzi-los somente misturados com a ração. E bem lentamente ir retirando até que se chegue à ração pura ou com uma proporção menor de petisco relacionado ao alimento principal.

          “...se sento no sofá ela pede para subir se deito na cama ela pede, e se não pegar ela fica latindo e eu claro cedo as suas chantagens, dorme comigo ou com minha filha...”

Cães são animais de hábitos sociais, e conhecem seus tutores mais do que se pode imaginar, com isso percebem oportunidades de estabelecerem comunicação com as pessoas, e conforme há sucesso nas tentativas agregam esse comportamento. No caso descrito a Pincher percebeu, inteligentemente, que ao latir tem o que deseja. Então utiliza o latido como forma de expressar suas vontades, e quando não são atendidas insiste pois certamente sempre obteve sucesso dessa forma. Deve-se ignorar os latidos completamente, e quando o cão desistir substituí-lo por outro comportamento como, por exemplo, ensiná-lo a sentar sempre antes de fazer suas vontades. Esta seria uma solução eficiente a longo prazo.

Tutor 2: “...passa o dia e a noite catando tudo que acha pela casa e carregando pra outro lugar...”

Normalmente o cão acompanha a rotina da casa, ativo durante o dia e dormindo a noite. Quando há atividade noturna exagerada, e comportamentos que se tornam compulsivos ou repetitivos, como o da Milla, há indicativo de baixo nível de atividades físicas e mentais na rotina do animal. Pode estar ocorrendo também um comportamento de busca de atenção, em que o cão percebeu algum tipo de interação com os tutores, mesmo que seja uma bronca. Atividades físicas ao ar livre diárias, como uma boa caminhada, e fornecimento de brinquedos inteligentes para cães ajudariam a auxiliar o problema a primeira vista.

Tutor 3: “...chora horrores quando estamos a mesa almoçando pedindo comida e quando saímos de casa.”

Mais um caso em que o cão encontra um meio de comunicação com os tutores, nesse caso foi ensinado inadvertidamente para o Sansão que ao “chorar” sua vontade será prontamente atendida. Não ceder suas vontades durante as refeições na mesa e fornecer brinquedos liberadores de petiscos somente nesses momentos, talvez ajudasse a distraí-lo e resolveria ou diminuiria a intensidade do comportamento com o tempo.

Baseado no relato em específico, a princípio, o ato do cão “chorar” quando se encontra sozinho é indicativo de insegurança. Um diagnóstico mais detalhado talvez indicasse Ansiedade por Separação, que é um transtorno ligado a um estado de ansiedade extrema ao ato de ficar sozinho, às vezes, inclusive, sendo necessário intervenção farmacológica. Nesse caso não seria prudente indicar uma possível solução sem mais detalhes relacionado ao histórico do animal.

Tutor 4: ...”Ghaia literalmente roeu, seis cadeiras de madeira da sala, um sofa de couro, um poltrona tambem de couro, um puff...”

O cão, quando filhote, possui comportamento exploratório normal devido a sua curiosidade extrema, e como não tem mãos ele utiliza a boca como ferramenta exploratória. A mastigação indevida está ligada a esse comportamento normal, e ainda tem como aliado o fato do desenvolvimento dentário ocasionar incômodo no filhote que se alivia direcionando seus dentes aos nossos preciosos objetos. Nesse caso devemos monitorar o cão sempre durante essa fase, e quando não puder dar 100% de atenção isolá-lo em uma ambiente seguro. Brinquedos mastigáveis de longa duração devem ser fornecidos aos montes nessa fase, com os tutores sempre indicando que ficam satisfeitos quando a “voracidade” é direcionada para eles. Preparação do ambiente com substâncias de sabor aversivo, encontradas em lojas especializadas, aplicadas sobre itens proibidos auxilia no condicionamento. Atividades físicas e mentais devem ser incluídas na rotina diária do animal, ou o levará ao estresse e a desenvolver compulsões, e entre eles inclui a mastigação exagerada.

Tutor 5: “...sempre pulam desesperadamente sobre mim, meu marido ou qualquer pessoa que entre em casa."

O comportamento de salto do cão é normal, pois é uma forma de cumprimento canino. Mas as pessoas, inadvertidamente, reforçam esse comportamento através de indicações positivas. E então o cão aumenta a intensidade e números de saltos, pois entende que quando salta em alguém existe a possibilidade de ganhar carinho. Ignorar o cão durante interações que o mesmo salte é o primeiro passo. O outro é a substituição do comportamento de saltar gradativamente por outro, como, por exemplo, ensinar seu cão a sentar para interagir tanto com os tutores quanto as visitas. Desconfiem em metodologias que podem levar o cão a se sentir desconfortável, o que normalmente aumenta a ansiedade do animal.

          “...Também nos arrastam quando os levamos pra passear.”

Comportamento ligado a falta de condicionamento do animal durante os passeios externos. Necessário a intervenção de um profissional especializado em comportamento canino para que indique os equipamentos e metodologia ideal para o caso, assim como condicionar o animal. Prestem atenção em metodologias baseadas em punições, existem técnicas gentis e mais eficientes do seu cão aprender a caminhar corretamente.

Fonte: Dr. Paulo F. de O. Deslandes - Médico Veterinário especializado em Comportamento Canino e Felino

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